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Romance de primavera

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Não sei se você leu algum texto meu sobre relacionamentos pra saber que sou daqueles que esperam um príncipe. Não num cavalo branco (talvez numa Harley) e nem precisa ser loiro. Só precisa mesmo transformar em realidade os carinhos físicos e verbais que devaneio todos os dias antes de dormir. E os romances de primavera são assim: têm validade e mudam sua vida.


Tive meu romance de primavera. Considerei muito escrever essa postagem, logo agora, bem depois do começo mágico e final trágico, que carrega em essência toda a esperança que um dia quis pra mim. Só acho que seria legal compartilhar com vocês a experiência, o sabor do doce ao amargo. Do início ao fim, enfim.

Pois é quando a estação muda. É quando você decide sair de casa à meia-noite, ignorando todas as probabilidades de não haver mais conduções para as duas horas que levará pra chegar na casa do cara que você conheceu na mesma noite, pela internet. E você pensa: ele vai embora em menos de um mês. Se eu deixar esse sábado pra lá e encontrá-lo apenas na segunda, deixarei dois dias se afastarem. Estaremos dois dias mais mortos. 

E é quando você é surpreendido na portaria por um cara pouco mais baixo, de sorriso fofo e roupas comuns. O cara não tem nada de especial, não chama atenção nenhuma, mas mesmo assim você sente curiosidade, quer saber quem ele é, de onde veio. No sofá, numa conversa de apresentação, você descobre que se sente mais à vontade com ele do que com o cara por qual sente paixão desde os 15 anos. É aí que você sabe que a viagem valeu a pena, só pela conversa.


E é quando vocês atravessam a noite sem calar a boca, quando você vê o cansaço nos olhos dele e decide dormir ali, compartilhar a cama na inocência idiota de qual todo mundo adora rir. E é quando, quatro horas depois, você não aguenta ver a boca dele se mexer e a puxa para junto da sua, só pra mapear os lábios que só falam coisas azuis. Só pra quebrar o paradigma. Você beija um estranho e sente que estranho é o mundo que você conhecia até então.

E é quando a semana voa e você compartilha quase todos os dias com aquele presente amaldiçoado, aquela bomba-relógio de corações taxidermistas. É quando aproveita cada centímetro de pele e cada tonicidade do sotaque, porque sabe que ele vai embora, porque sabe que ele tem um avião pra pegar, porque sabe que as flores só desabrocham pra morrer. É pra isso que nascemos, pra morrer. Romances assim nos deixam clara a alternativa de viver nesse meio-tempo. 

E é quando, no sábado posterior ao que vocês se conheceram através da alma, quando você não consegue mais conter o impulso de quebrar todas as regras da sociedade e roubá-lo desse planeta para qualquer buraco escondido que possa abrigar a realização de seus mais profundos desejos de carinho, que ele te diz ter outra pessoa. Que te diz já ter encontrado alguém com quem ele gostaria de passar o resto da vida.

E é quando você grita e xinga. É quando chora e não consegue dormir. É quando o odeia por, justamente, gostar demais. Mais do que deveria, mais do que achou que poderia. É quando você chora no escuro do quarto e não consegue dividir a cama. É quando você o abraça e ignora o tempo restante para que ele volte ao país de origem: você sabe que depois que passar por aquela porta, não vai mais vê-lo. Nem por orgulho, nem por falta de vontade, mas por precaução. 

É quando te oferecem o paraíso e o substituem pelo inferno. É quando você lava o rosto na pia do banheiro e cantarola qualquer coisa apenas pra disfarçar a respiração acelerada e a voz tremida. É quando você não consegue ouvir 90% das músicas do seu player sem querer cair no chão e derreter em água e sal. 

É quando você o abraça e, beijando sua testa, sente as escamas de uma granada sem pino, pronta pra explodir e obliterar todos os apartamentos daquele prédio. É quando você passa pela porta e respira fundo: ele te deixou ir. Na rua, uma folha cai sobre seu casaco. É quando você olha para o apartamento e diz um "eu fui seu" sem falar absolutamente nada.

É quando você larga a folha no chão e deixa o vento soprá-la para longe, para junto com a estação das flores: você também precisa deixá-lo ir.

Aqui tem a tradução da música, que apesar de ser "summertime", traduz muito bem o que um romance de primavera (ou verão) faz com alguém. O que fez comigo.

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