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A Viagem (2013)


Tô com vontade de chorar. Chorar e rir ao mesmo tempo. Tem esse nó na minha garganta, sabe? Begus veio ver comigo e mesmo depois de ter acabado, mesmo depois de termos sentado a bunda pra escrever (eu) e dormir (ele), a gente não consegue parar de falar sobre Cloud Atlas, chamado de A Viagem aqui no Brasil. Vou tentar explicar o porquê...

Gastei quase um minuto olhando o teclado sem olhar de verdade, pensando em como começar esse parágrafo, sobre como falar o monte de coisas que estão voando na minha barriga. Não são borboletas nem os efeitos do Activia que minha avó insiste que eu tome (o que não faço, por sinal). O que você precisa saber é que são 6 histórias afundadas em simbolismos. A começar pelo número 6 (consciente coletivo, evolução, ligação entre o divino com o terreno, o que transforma um em todos), que aparece no filme com nomes diferentes, mas que levantam a mesma bandeira simbólica (não posso explicar melhor sem dar spoiler). 

Temos então Tom Hanks, Halle Berry, Jim Broadbent, Ben Whishaw, Bae Doo-Na e Jim Sturges vivendo diversas personagens, em diversas partes do tempo, do passado ao futuro de um planeta destruído. E todos se interligam de alguma forma, até a personagens secundários como os de James D'Arcy ou de Xun Zhou, pois o filme trata das atitudes que tomamos, pequenas ou grandes, que afetam constantemente a uniformidade falsa do futuro, que muda o tempo todo. 

A Viagem tem significados abertos, filosóficos, mas se conseguir manter foco durante as três horas, vai entender que ele aponta muito bem a função de existir: toda vida é importante e elas se cruzam direta ou indiretamente, afetando todos os caminhos. Um bom exemplo (e nem tão spoiler assim) é o da personagem Timothy Cavendish (guarde esse nome quando for assistir), que não passa de um homem comum, que cometeu milhões de erros e que, no fim do filme, mostra que mesmo tendo sido um qualquer, influenciou mais de cem anos de história à frente de seu tempo.

É um vai e volta absurdo! É pra ver com vontade de brincar de detetive, porque confunde mas consegue ser mais simples até do que A Origem. A diferença fica pela quantidade de informação recebida e por você precisar prestar atenção em TUDO QUE APARECE EM CENA, incluindo figurantes (sério, acredite em mim e veja a apresentação dos atores após os primeiros créditos) e objetos (a cena do quebra-quebra de porcelana que, no contexto, é uma quebra com os paradigmas da sociedade da época). E é preciso estar com o coração aberto, por mais piegas que soe.


Se for o tipo de pessoa que tem problemas pra entender subjetivos ou o que leva seres humanos a mudarem, não acho que vá entender Cloud Atlas. Nem vai ter saco pra tentar.

É um jogo sobre o fim da vida e a plenitude da alma, como algumas pessoas desencarnam e reencarnam (pela filosofia da reencarnação) em diferentes épocas para aperfeiçoarem quem são (uma das personagens de Tom Hanks) e exercer papéis para uma missão maior (muito maior mesmo!). Pra entender o conceito, vou explicar sobre reencarnação bem rapidinho:

Acredita-se que as almas são ligadas à núcleos de evolução, onde você morre e renasce fazendo outro papel na família espiritual a qual pertence (que pode se estender à família de sangue, adotados, vizinhos ou até mesmo um bairro inteiro). Toda vez que morrer, para reencarnar e aprender a ser cada vez mais desapegado do material e apegado aos sentimentos puros, é certo de que renascerá dentro desse mesmo grupo, desenvolvendo seu próprio espírito e o de quem entrar em contato contigo, gerando o efeito dominó: gentileza gera gentileza.


Um exemplo: digamos que você tenha uma filha e essa menina é assassinada por um homem que mora no mesmo bairro. Você chora, pragueja e passa a odiar aquele filho da puta. Anos depois, a sobrinha que você mal fala tem um filho por qual você se apaixona instantaneamente ou sente forte ligação. Quando a criança fica maior, te diz uma frase ou mostra atitudes que fazem você repensar sobre o perdão e perceber que se sua filha ainda estivesse viva, você poderia nunca ter se aberto àquela nova criança ou se unido à sua sobrinha e a parte da família com qual você pouco tinha contato. 

Isso resume Cloud Atlas. Às vezes, numa frase que dizemos por dizer, num livro que escrevemos com vontade de nos expressarmos (ou ganhar pilhas de dinheiro), as palavras podem ecoar pela eternidade. Um ouve e passa pra outro, que passa pra outro, que passa pra outro, até chegar em alguém que vai se apoiar nessa frase e revolucionar a própria vida ou de outros, seja essa uma frase de motivação, de violência ou paz. 

"De que adianta eu guardar o lixo na bolsa e não jogar na rua já que todo mundo joga e não adianta nada? Eu sou só um, não faz diferença", é o que mais ouço por aí. Queria botar essa gente sentada, presa com Superbonder na cadeira do cinema pra mostrar os ecos de UMA atitude. Nossos gostos, nossa personalidade, esse todo é formado por caquinhos de atitudes de outros, por gostos de outros. O ser humano é a criatura mais adaptável da Terra porque é influenciado pelo meio em que vive. Isso muda tudo. 

- Não importa o que você faça, será apenas uma gota no oceano!
- O que é o oceano senão uma multiplicação de gotas?

Junto com meus maiores elogios do mundo para a(s) esplêndida(s) atuação(ões) de Tom Hanks e Jim Broadbent, a computação gráfica digna dos Wachowski, da fotografia imaculada tratando com respeito cada época e a trilha sonora de arrepiar os pentelhos, encerro esse [filme com leite condensado] gigante.


É um dos melhores filmes que já vi na minha vida inteira e creio que vou precisar ver mais vezes pra captar o que posso ter perdido, lembrar de frases, reparar em rostos.

Vá ao cinema, leve sanduíches e alguém que você ama (desde que essa pessoa tenha paciência e curiosidade). Vocês, com toda certeza, mesmo que não gostem do filme tanto quanto gostei, vão sair de lá com algo pra pensar. E esse filme é só mais uma das gotinhas mágicas que o cinema tem o prazer de nos oferecer. E juro que não é minha intenção soar cult.

Obrigado Tom Tykwer, David Mitchell e Andy & (agora) Lana Wachowski: foi o ingresso mais bem pago do cinema nesses últimos três anos. E olha que eu vi Batman - O Cavaleiro das Trevas Ressurge quatro vezes.

Semana que vem tô lá de novo.




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