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Por que amigos não podem agir como amigas?

bromance

Andar de braços enganchados no shopping, se arrumar de calcinha e sutiã ao som de Arctic Monkeys antes de ir pra festa, ir ao banheiro juntas pra fofocar sobre as pessoas na mesa e tirar fotos cheias de estilo e livres de amarras machistas: eu-invejo-a-amizade-entre-garotas. Por que nós, meninos, não podemos agir da mesma forma? Por que temos de ser tão frios, intocáveis?

Quando dois amigos se encontram, até pode rolar abraço, desde que seja curto, um pouco violento e desajeitado. Mais aconselhável é o aperto de mão com força pra quebrar um tijolo. Não que eu queria que nos cumprimentemos com beijinhos no rosto ou empolgação exacerbada, mas gostaria muito de que pudéssemos escolher nos cumprimentarmos assim sem medo de reprovação social.

Falo por meu melhor amigo, que é um irmão. Nos conhecemos desde os 9 anos, sabemos os podres um do outro, ele abre minha geladeira, a gente conversa sobre xixi, pum e cocô e sabemos todas as fantasias sexuais que esperamos realizar um dia. Na hora de abraçar, a gente simplesmente não se abraça. A gente nem aperta a mão. A gente se fala "oi, piranha" a dois passos de distância e sufoca esse carinho.

Já outra melhor amiga, irmã de sangue diferente, passo horas agarrado no sofá, damos chocolate na boca um do outro, apoiamos a perna um no outro e tiramos fotos sem medo de juntar o rosto. Por que com ele esse tipo de contato físico não funciona? Olhando o histórico, é muito mais fácil acontecer com meninas, mas entre meninos o negócio fica tenso.

Muito do conceito machista influencia o convívio humano. Enquanto mulheres têm "habilitação" pra isso e são caracterizadas por agirem como "peruas", homens têm a obrigação de coçar o saco e falar grosso pra provar alguma coisa pra um mundo que não se importa com o que ele tem de melhor, mas que julga e estereotipa o que ele tem de "pior".

De volta ao meu amigo, ambos beijamos homens na boca. Se fosse por seguir a linha catalogada da sociedade, deveríamos agir dentro do molde que nos separa do resto dos "machos", heterossexuais, também catalogados dessa forma. Mesmo que falemos mal ou lutemos contra o molde, ele acaba implantado em nossa forma de agir quando queremos nos abraçar num momento de felicidade e não conseguimos.

Nos preocupamos com o que vão pensar — mesmo que digamos que não. O conceito fica enraizado na criação, no subconsciente, mas é possível quebrá-lo. Abraçar outro homem não te torna gay. Te torna humano, na real. Quando em intimidade, temos sexo e beijo na boca. Quando dos pais pro filho, pegar no colo. Quando na amizade, por que não abraços, dividir a mesma cama e tomar gim-tônica de cueca, trocando de roupa pra ver o que fica melhor antes de sair?

Não que queira me tornar afetado, balançar as mãos no alto e estalar beijos em bochechas, mas admiro quem faça isso sem se importar, pois julgar pessoas assim, gays ou não, é estar sob efeito dessa manta ignorante de machismo, de que "gays efeminados" não representam gays mais "homenzinhos", ou que todo heterossexual sem paredes para contato físico ou personalidade manhosa tenha preferência por pênis ao invés de pepecas.

Fica o exercício que desenvolvi pra mim: pegar uma marreta psíquica e destruir essa redoma psicológica limitadora, negativa e irritante. Quero poder abraçar meus amigos quando bem entender, sem ter de me preocupar com a aprovação de ninguém.

Nem com a sua.

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