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De Repente, Califórnia (2007)


Há quem diga que a história é conto de fadas, pouco realista. A crítica chegou a apontar como o "The O.C. gay". Acho que De Repente, Califórnia (Shelter, no original) vai muito além dessas características. É um dos filmes românticos mais bonitos que já vi, fora do clichê, e mistura trilha sonora indie, produção indie, surf, skate, literatura e grafite. Meu favorito instantâneo.

Nem me lembro quando foi a primeira vez que assisti a esse filme, mas foi de cara que ele ganhou lugar especial no meu Top 5. É a história de como Zach (garoto pobre da Califórnia, filho de pai detonado pela perda da mãe, com irmã que teve filho cedo e não tem a menor vocação pra ser mãe e que fez com que Zach se tornasse o pai do menino, impedindo-o de viver a própria vida) conhece Shaun (escritor complexado, irmão mais velho de seu melhor amigo Gabe, ambos filhos de família rica).

Shane tem certa má fama por ser homossexual assumido, mas Zach o conhece desde que era pequeno e, sem querer, passam a surfar e sair juntos depois de anos, quando Shaun volta pra casa depois de um relacionamento destruído. A companhia de Shaun é o que ajuda Zach a sentir menos o peso de uma vida cheias de responsabilidades cedo, quando seu sonho é ir para a faculdade de artes que se torna inalcançável quando ele se vê como a âncora da família, o cara que carrega os problemas de todos. Principalmente quando ama tanto o sobrinho.

Rola um beijo entre Shaun e Zach e tudo muda. Aqueles questionamentos: "o que eu tô sentindo?", "por que algo tão errado é tão bom?", "essa é a primeira vez que me sinto atraído por um cara?" e assim Zach precisa encarar uma nova realidade, tendo de buscar até como artista uma nova perspectiva.

Apesar de ter essa carga de garoto-pobre-cheio-de-problemas-socorro, a narrativa é muito leve, suave. Ela não força você a sentir pena de Zach. Só te mostra o que ele passa, a rotina como é a de todo mundo que tem problemas de quais não consegue fugir. Por ser de produção independente, De Repente, Califórnia não é encaixotado em regrinhas de grandes produções. É espontâneo e sincero.

O romance dos dois, cara, é a coisa mais linda do universo! Se não fosse pelos questionamentos típicos, daria pra esquecer que são dois caras se relacionando. São seres humanos, são cuidadosos, se gostam de maneira muito madura. Talvez daí tenha vindo essa ideia de que é "pouco realista". Acho o oposto. É algo que acontece pra uma a cada mil pessoas, mas acontece. 

Diferente dos filmes que retratam romance entre homens, esse aqui é muito tranquilo quando aborda sexo. O máximo de nudez é o mesmo na hora de surfar: falta de camisa. E nunca em excesso. Sem gemidos, sem constrangimento se estiver assistindo com a família, sem micão. A trilha sonora in-crí-vel (digna de The O.C., por isso a comparação) traz artistas e bandas independentes características do estilo praiano de viver.

Vou repetir: a estética é linda! Tem cara de indie, jeitão californiano, skate, romance e, mano, são dois caras! Eu ficaria tão feliz se produzissem mais filmes que falassem de gays fora dos arquétipos e dramas que já conhecemos e mais dentro da possibilidade de algo que pudesse passar na Sessão da Tarde ao invés do Corujão, que pudéssemos assistir com nossos irmãos, pais e sobrinhos! 

Por isso, não menospreze Shelter. Ame Shelter. Sua simplicidade e inocência são suas maiores qualidades quando, pra muita gente, são seus maiores defeitos. O foco fica por conta da possibilidade de dois homens encontrarem em algo em comum a chance para serem felizes e, por que não, desenvolverem uma família, uma vida, uma história juntos. É mais do que qualquer outro filme do gênero ofereceu sem ter de deixar metade do elenco pelado.

Tire a prova real: assista hoje!

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