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Notívagos: quem prefere a noite

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Sou das corujas, daqueles que se sentem mais inspirados, animados e felizes depois que o Sol se põe, cruzando a madrugada como uma estrada, não uma escalada intensa — como é a parte diurna do dia. Infelizmente a sociedade obriga pessoas como nós, de natureza biológica diferente, a levantar de dia e adormecer com as estrelas. Por que ser noturno é tão bom?

Sinceramente, vai de pessoa pra pessoa, claro, mas pela curiosidade humana temos uma analogia com a presença das sombras, a Lua, o mistério. A noite é quando o mundo esfria e as máscaras são guardadas em casa. É quando as ruas estão desertas e as casas em silêncio. Os gatos saem pra brincar, os cães uivam para lobos em outros continentes e nós, notívagos, pregamos as pálpebras nas testas e nos colocamos pra mexer, porque é só quando tá escuro que temos 100% de nossa energia. 

Sob a luz lunar, podemos mover montanhas! Pelo menos sinto que posso limpar a casa, o bairro... sem falar em meus textos, que saem com o dobro de inspiração, charmosos. Falando em charme, por que vocês acham que as baladas acontecem mais à noite? Porque todo mundo fica bonito à meia-luz. Poucas pessoas têm medo de se produzir como acontece de dia. "Será que esse batom não vai ficar feio se eu chegar de manhã no trabalho?" não existe. Existe o "vou de jaqueta jeans, botas de combate e não terá vampiro que não me olhe".

O homem é uma das criaturas que se deixa paralisar por temores não questionados. Nossa sociedade se formou sobre o pavor da noite, dos monstros, das bruxas e mentiras criadas para nos manter sob controle, sob regras. Milênios depois, ainda somos obrigados a sorrir para as zilhões de rajadas fatais de raios ultra-violetas e chorar por colo quando nosso satélite, tão humilde, se permite enxergar, ao contrário de seu parceiro, sempre ofuscante, sempre impossível de encarar.

Não importa qual horário acordemos, sempre esticaremos algumas horas para dentro da obscuridade. Sempre iremos olhar para o relógio às quatro da manhã pra pensar que ainda tá cedo, que há muito a ser feito antes da alvorada. Mesmo que seja só assistir um monte de séries e comer besteira. Porque até a comida fica mais gostosa de madrugada, nos assaltos descarados que fazemos contra a geladeira.


É pelo poder dessa parte do dia que mais me identifico. Sou filho das trevas, garoto que acorda quando todo mundo dorme, que dança A-Punk de cueca na frente do espelho depois do banho às três da manhã, que come três cachorros-quentes antes de, finalmente, deitar pra tentar dormir.

E mesmo que a rotina me obrigue a mudar o horário de meu corpo, sempre terá algo depois das seis esperando por mim. Se sou vampiro enrustido, não sei. Só sei que é assim.

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