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Fumantes: da estética à patética

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Minha alergia nunca me deixou sobreviver feliz ao lado de minha fumante mamãe: menstruações nasais, espirros secos e dolorosos, olhos vermelhos... odiei cigarro a partir daí. Só que a adolescência chegou e ao mesmo tempo que negava beijar fumantes na boca, não conseguia parar de admirar como era belo o enquadramento de um jovem assoprando fumaça, pisando em guimbas com All Star surrados.

Dentro do meu senso de estética, considero o ato de fumar muito bonito quando inserido na fotografia, filmes e até em músicas. Gosto da parte lúdica, de como o cigarro deixa elegante a figura de quase qualquer pessoa. Não quer dizer que eu seja a favor dessa droga. Nem ligo pra quem fuma, já que cada um sabe o que faz bem pra si. Me incomoda a maneira com que fumam, como não respeitam não-fumantes. Principalmente quando a gente se arruma.

Sai do banho pingando beleza. Passa dois quilos de creme nos cabelos e evapora a saúde dos fios com o secador. Veste a melhor roupa, calça a melhor bota. Pra fechar o ritual que vai apresentar uma pessoa limpa e arrumada para a sociedade, perfume caríssimo borrifado sem economia atrás de cada orelha. Vai para o ponto de o ônibus como se nada no mundo pudesse dar errado. Eis que aparece o próprio filho de Satanás soltando fumaça pela boca: é a porra de um fumante doido pra deixar em você o cheiro típico de cinzas.

É de escárnio, parece. Grande parte dos fumantes tem certo probleminha para entender que o cheiro da fumaça gruda em quem está ao redor, que não há perfume que dure a noite toda quando temos chaminés esbaforando o tempo todo. Mesmo que o cara pareça lindo na porta da balada com o cigarro entre os dedos, não passará de um belo filho da leitoa se queimar sua mão sem querer na pista de dança ou se deixar seu cabelinho com cheiro de restaurante japonês incendiado por mafiosos chineses.

Na arte e nas propagandas que querem vender o cigarro como algo descolado e incrível, admiro a beleza desse tipo de monstro, mas para por aí da mesma forma que o Rio de Janeiro parece lindo em catálogos turísticos mas é um caos se ver de perto, com cheirinho de esgoto e peidos de automóveis. "Mas só fumo vez ou outra, quando saio ou bebo", diz aquele que tem um maço de Black na bolsa mas nega a se admitir como fumante.

"Baby", começo, "cigarro é o tipo de droga de qual você não fuma 'vez ou outra'. No começo, talvez. Ele foi feito pra viciar você, cordeirinho. Essas propagandas, essas fotos, é tudo isso mesmo: desenhos. São vendas nos seus olhinhos embaçados para que você não perceba que de um e um cigarro, o que você ganha achando que está lindo e descolado, você perde num pulmão da cor do asfalto e boca com cheiro de fogueira suja. Você não está no controle. Você não é tão cool."

"Mas se quiser fumar", completo depois da tentativa de retórica onde ele defende como é dono de si e que pode parar a qualquer momento, "fume longe de mim".

Isso é tudo que peço.

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