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Vício em héteros: querer quem não podemos ter

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Mesmo aliens como eu sofrem com o mal de se apaixonar por alguém condicional-sexualmente indisponível. No caso, homossexual se apaixonar por heterossexual. Ou quando heterossexual se apaixona por alguém do gênero que o agrada, mas que é homossexual. Ou quando apenas nos apaixonamos por quem nunca vai nos olhar com a tag "possível relacionamento". Problema é quando viciamos nisso de não podermos ter.

Fui viciado em me apaixonar por héteros há três ou quatro anos. Chegava ao extremo de bolar planos para conseguir beijos ou toques mais íntimos — o que envolvia festas, álcool, jogos de más intenções e que sempre funcionavam. Tudo porque, sem saber, queria me apaixonar por alguém, me sentir humano, vivo, sentir as dores da paixão. Só não queria que sentissem o mesmo de volta. Não queria ser responsável pelos sentimentos de ninguém. Por isso era mais fácil jogar o fardo nas costas de quem nunca se apaixonaria por mim do que admitir que um relacionamento honesto poderia não funcionar por eu ser emocionalmente fodido.

Começa com a paixão sem controle por um amigo ou alguém que você admira no colégio. Talvez ele tenha um corpo que agrada bastante ou só é um "você" mais legal, mais evoluído. Quase sempre é mais velho, mesmo que só um ano. E sempre dá sinais de que "tá dando mole", mesmo que não esteja de verdade. É quando passamos a enxergar chifre em macaco que a coisa começa a ficar ruim e a gente precisa se perguntar o que está fazendo.

Porque assim como eu, muitos amigos gastaram anos apaixonados por alguém que nunca poderiam ter! Pior ainda, culparam a pessoa pelo tempo perdido! Por que diabos a gente nunca chutou o pau da barraca e admitiu derrota? Por que a gente não deixou pra lá e foi tentar um relacionamento de verdade? Oportunidades não faltaram, mas os pretendentes eram "demais": altos demais, baixos demais, efeminados demais, machos demais e blá, blá, blá. 

O perfeito era aquele que a gente não podia ter... aaah, aquele sim era homem ideal! Sabe por que ele era ideal? Porque a gente não tinha! Porque imaginar relacionamentos em cima de alguém é muito menos complicado e mais gostoso do que viver um de verdade, com seus trancos, barrancos e "demais". É mais fácil evitar as falhas e defeitos de personalidade/aparência fantasiando cenas e esquematizando armadilhas do que se jogar com fome de curiosidade em algo que tá acontecendo de verdade!

Tanto que nas vezes que consegui meus "héteros", quando os beijei pela primeira vez, quase perdi o interesse instantaneamente. Quando houve a quebra da fantasia para a realidade, os "demais" apareceram. "O beijo foi vazio demais", "ele se prende demais", "tá no armário por tempo demais". É um tipo de acontecimento que não fica contido apenas a meninos que gostam de meninos ou meninas que gostam de beijar meninas. Acontece com todo mundo!

A gente sempre quer quem não pode ter porque somos covardes ou complexados demais pra experimentar a quantidade de vigas de um relacionamento real. Ou temos timidez! Ou preguiça! Apesar de entender que não podemos escolher por quem nos interessamos, sei também que podemos nos desapegar, podemos passar por cima de sentimentos, pessoas e situações que nos impedem de nos darmos o amor que merecemos.

E por isso deixei de me permitir envolver com pessoas sexualmente confusas, indisponíveis ou emocionalmente distantes — o que quase destruiu meu leque de opções nesse mundo moderno. Me apego à vontade de encontrar meu príncipe numa Harley Davidson, mesmo que ele venha com alguns defeitos de fabricação. E pode ter certeza de que não vai ser nem um pouco heterossexual. Pode ser mais masculino, sim, mas não hétero. 

Meu príncipe vai me amar muito bem, obrigado. Mesmo eu sendo um garotinho com pene entre as pernas.

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