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Dormir de conchinha é o importante

conchinha

Amores Imaginários deixa bem claro que o importante é dormir de conchinha (ou de colherzinha, como dizem por aí). Mas parece ser uma filosofia espiritual repetida em diferentes culturas, de diferentes maneiras. É quando deitamos abraçando alguém por trás, ou sendo abraçado desse jeito, formando um "C" com o par. Será que nosso desespero pra achar alguém não é apenas falta de conchinha?

Verdade que não sou o maior fã de conchinha do mundo, mas tem dias que tudo que preciso é um pouco de carinho. "C" é a letra de todas essas palavras que ecoam na nossa aura: Conchinha, Carinho, Carência e Calor. Carência, principalmente. A sensação de que há alguém cuidando de você — ou que você tá cuidando de alguém — preenche a amargura de que não há mais nada pra se segurar. Por uma noite que seja, há troca de preocupações e outra pessoa na cama ou tapete (além da já rodada solidão).

Pra brincar de conchinha não é necessário aliança ou pedido de namoro. Rosas e chocolate também passam batidos. Na realidade, conchinha é o resumo de tudo isso, implícito. Conchinha é tão tabu e cheia de regras que pra pouca gente permitimos esse tipo de intimidade. Aceitar o abraço ou abraçar dessa forma é aceitar vulnerabilidades: sua e do outro. É além do físico. Claro que há o conforto de alguém te esquentando, pode rolar excitação sexual, mas vai além da carne.

É a quebra de barreira entre o que você parece pro mundo e o que você é de verdade. Tanto que em relacionamentos de uma noite, os famosos pente & rala, pessoas costumam correr da colherzinha justamente por desenvolver um tipo de laço mais fraternal que tem como requisito um avanço de sinal: "deixaremos de ser desconhecidos para nos tornamos amigos coloridos que trocam conchinha? Será que vamos acabar namorando? Cristo, e se ele se apegar por causa disso? Não!". E aí está a barreira.

Não que seja ruim! É bom não distribuir conchinhas pra todo mundo. É bom escalar alguns degraus justamente pra dar valor à recompensa. Porque conchinha você recebeu dos pais — se sua família não for tão fodida —, de quando sua mãe te colocava pra dormir coçando seus cabelos, ou quando papai puxava um colchão na sala depois do almoço e te fazia cochilar assistindo o jogo de futebol. Conchinha é hereditária.

Da mesma forma que você não sai por aí distribuindo material genético (não deveria, pelo menos), conchinhas são medalhas de honra. A razão por qual tanta gente busca sua alma gêmea, a outra metade: não dá pra fazer conchinha sozinho. Quando sozinhos, a única posição que podemos fazer é a fetal, quando estamos deprimidos, sem conchinha e querendo morrer por causa disso.

Conchinha é o supra-sumo da companhia, quando o outro, seja quem for, representa conforto e carinho suficiente para que a intimidade se traduza no cabelo não lavado debaixo do nariz ou a cara amassada ao acordar. Falando em acordar, conchinha é abrir os olhos diversas vezes na madrugada porque a pessoa acabou te chutando (ossos do ofício) ou roncou alto demais no teu ouvido. É olhar pra trás e agradecer porque, no fim das contas, ninguém quer passar todos os dias (ou noites) sozinho.

Não pro resto da vida.

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