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Quando viramos desconhecidos

desconhecidos

Tive dificuldade pra fazer amigos quando novinho, no colégio. Antes de achar meu grupo (garotos mais velhos, roqueiros, RPGistas e usuários dependentes de preto), tive poucos amigos. Um deles foi um companheiro mesmo, compartilhávamos vários gostos. Hoje, passa pela rua e finge não me ver. Pros outros, ele ainda diz que nunca gostou de mim. Por que brincamos de transformar conhecidos em indigentes?

Olha, quem disse que seria mais fácil fingir não ver ou não conhecer alguém, realmente não me conhecia. Não por eu achar a ideia um completo desperdício, porque sim, existem pessoas que ficam muito mais divertidas fora de nossas vidas, como aquele ex que sempre te tratou mal ou a vizinha fofoqueira que contou pros seus pais que foi você quem incendiou a garagem dela por ela ter furado sua bola em forma de Pikachu

Digo que não é fácil porque é difícil você olhar para alguém sem enxergar. É quase como se o pescoço virasse automaticamente pra ela, como se os olhos fossem atraídos magneticamente por culpa ou similar. E aí você espera que ela te cumprimente pra quem sabe, talvez, você faça o mesmo. Mas a mesma luta que você trava para ignorar aquela pessoa, ela também está lutando. Ela também está tentando ignorar você

Às vezes nem por não gostarmos, mas por vergonha. Sabe aquela história de nunca saber quando dizer "oi" sem o medo de ficar no vácuo? Tipo isso, já que se você não vir, não precisa cumprimentar, certo? O que me faz pensar que a lista de pessoas ignoradas-e-visualmente-não-existentes precisa de lapidação constante, já que ser ignorado é o pior castigo que o ser humano — bicho necessitado de atenção e aprovação — pode receber.

Ignorar é exercer algo além da crueldade, já que para ser cruel você precisa admitir a existência de uma "vítima". Ignorar é apagar por completo todas as memórias, toda a quintessência que envolva o indivíduo, que se torna invisível, mesmo estando na sua frente. Nesse caso, ao invés da atração magnética que falei ali em cima, seu corpo, mente, espírito e até encostos, rejeitam a presença do ignorado. 

Suas pupilas passam direto, você não nota presença e, o que confirma que sua arte de ignorar está perfeita, é que você não se sente mal, bem, culpado ou coisa parecida. É quando não sente nada em relação ao ignorado é que você entende que está ignorando de verdade. 

Mesmo assim, as regras desse joguinho de transformar gente que foi importante pra mim em desconhecidos, sem motivos como brigas ou mágoas, sem razão, não faz muito sentido. Não pra mim. Desde que soube que o moleque disse pra uma galera que nunca gostou de mim, mesmo que tenhamos trocado figurinhas de Star Wars e bonecos dos Power Rangers, me senti curvado a perguntar pra ele o porquê. 

Nunca o fiz. Ao contrário: me perguntei se faria alguma diferença saber. Quando compreendi que não, não faria diferença alguma, entendi que minha metodologia de ignorar poderia ser colocada em prática. A partir do momento que a existência dele passou a ser nula pelo motivo que me ofereceu (ter insinuado que nossa amizade infantil foi "de mentirinha"), ele passou a significar o valor que deu ao nosso relacionamento.

Zero.

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