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"Que eu o salvaria"


Não sei dizer quando meus problemas pra viver a realidade começaram a aparecer, mas sempre houve essa figura em todos os momentos, cuspindo afeto até em nossas brigas imaginárias. Hoje é meu aniversário e não sei bem quantos anos estou fazendo, já que meu cérebro retrocede ao passo em que meu corpo avança, mergulhando nas areias do tempo, se tornando lama com o monte de lágrimas que chorei pra implorar piedade ao relógio.

Pouco me interessa. É como estar suspenso sobre um caldeirão pelando, meus olhos queimam, meu rosto ferve. Achei que fosse esquecer de mim por hoje, no aniversário de catorze dias desde que discutimos e ele bateu a porta sem dar uma palavra, me deixando sozinho com os gritos irados e o cachorro assustado que se escondeu de mim debaixo da cama. Inclusive a solidão tinha me abandonado até essa noite, meus 26 anos de sobrevivência terrestre. Lembro quantos anos estou fazendo.


Esqueço que tenho rosto até me abraçar na porta, enfiando meu nariz no seu pescoço quente. Está tão nervoso quanto eu nesse jogo de não saber como agir, nesses dramas que a gente inventa pra matar o tempo que nos mata, matando um ao outro. Que eu invento. Quando me solta, me puxa pra sala sem dizer uma só palavra. Sempre gostei do silêncio, mas depois de tudo? É meu aniversário e realmente quero saber o que tinha acontecido, como ele estava se sentindo. Como nós estávamos.

Me fez sentar no tapete. Só depois vi o violão que trazia preso às costas, tendo-o agora sobre a bermuda que não escondia parte da coxa dentro daquele pijama preto que eu conhecia muito bem. Era assim que ele se vestia quando decidia dormir comigo.

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Não reconheço a melodia nos primeiros acordes. Apenas quando a sílaba primogênita sai afinada da boca dele que apoio o queixo sobre as mãos e tento não chorar. Tento não lembrar que a primeira vez que escutei Wonderwall eu tinha quinze e, na última, vinte. Foi quando me questionei, logo depois de terminar um relacionamento "perfeito", se a dedicaria algum dia pra alguém. Agora era ele dedicando-a pra mim, me contando que havia muitas coisas que gostaria de dizer, mas não sabia como. E que era eu, o poço de instabilidade emocional, seu porto-seguro. Que eu o salvaria, talvez.

Eu só não sei dizer quando meus problemas pra viver a realidade começaram a aparecer, mas sempre houve essa figura em todos os momentos, cuspindo afeto até em nossas brigas imaginárias. Hoje é meu aniversário e não sei bem quantos anos estou fazendo, já que meu cérebro retrocede ao passo em que meu corpo avança, mergulhando nas areias do tempo, se tornando lama com o monte de lágrimas que chorei pra implorar piedade ao relógio.

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Pouco me interessa. É como estar suspenso pelos pés num frigorífico, os olhos ardendo, meu rosto queimando abaixo de zero. Achei que fosse lembrar de mim por essa noite, no aniversário de seis anos desde que me disse adeus, fechando a janela do Facebook pra me isolar de seus carinhos. A solidão, por outro lado, serve mais um pouco de vinho e cai no carpete, tão bêbada quanto eu, pra comemorar meus 26 anos de existência terrestre.

Nunca esqueço de todos os anos que passei me sentindo tão sozinho.


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