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Trilogia Matrix (1999-2004)


1999: Matrix chegou aos cinemas e, na virada do século, colocou a pulga atrás da orelha da galera: e se estivermos dormindo, sonhando que estamos acordados? E se o mundo "real" não for parecido com o que a gente conhece? O que é "real"? Criando uma geração de questionadores em duas horas (e sucessos de bilheteria), vou falar o que gosto nessa trilogia.

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MATRIX — The Matrix (1999)

Thomas Anderson trabalha de dia como programador, levando uma vida normal, entediante e excessivamente automática, que ganha um extra (e se diverte) à noite como hacker, sob o pseudônimo "Neo". Todos nós temos essa sensação de que algo no mundo não tá certo, você concorda? Parece que tem coisas que simplesmente não se encaixam. Neo descobre isso sem querer quando acessa informações sobre Morpheus, o maior hacker e seu objeto de admiração.

Numa noite, recebe instruções da hacker Trinity (que ele acreditava ser homem) para "seguir o coelho branco" (alusão à Alice no País das Maravilhas, onde o coelho a leva para um mundo diferente do que é conhecido). Ligando os fatos, ambos se encontram e conversam sobre Morpheus. Quando Neo vai trabalhar, está sendo caçado dentro do escritório por agentes que usam a desculpa de incriminá-lo por venda de softwares ilegais para apagá-lo do mundo "real". É nesse encontro com os agentes que ele percebe que o mundo que achava conhecer não é familiar.


Acaba salvo por Trinity e levado até Morpheus, que explica que nosso mundo (esse em que você está lendo o DDPP agora) não passa de simulação virtual, que no mundo "real" estamos encubados em máquinas, com tubos neurais presos aos nossos cérebros, produzindo ilusão em massa, como um grande MMORPG. Depois de diálogos maravilhosos e discussões sobre o que é real, Morpheus oferece a Neo duas opções: a pílula azul que o levará para casa, pra continuar vivendo a vidinha falsa; ou a vermelha, que o despertará. Só que depois de acordado, é impossível voltar a sonhar.

Neo vai na vermelha e descobre que é o depositário da fé de Morpheus como "O Escolhido" ("neo" significa "novo" e também é anagrama de "one" — The One) e que está nas costas dele salvar os seres humanos presos por esses computadores e robôs malvados ou não. Como? Através do mesmo modo que as máquinas os mantiveram presos: pela Matrix, a realidade virtual. Uma vez libertos dos códigos desse programa, eles se tornam capazes de quebrar e modificar seus cálculos, sendo assim, podem driblar as leis físicas nesse mundo virtual, como andar nas paredes, saltar a metros ou, no caso de Neo, desviar de balas.


Todo o conceito discutido sobre o poder da escolha, pressão da sociedade capitalista e da sociedade como um todo, é trabalhado numa fantasia. Matrix é alegoria, analogia que entretém através de belos efeitos especiais e toda a carga filosófica que empurra pra gente. É de inteligência absurda, mas escondida nas entrelinhas: o cara que quiser assistir um monte de brigas e ação vai apenas ver um monte disso. Quem quiser entender as conversas e atitudes, vai aproveitar muito mais.



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MATRIX RELOADED — The Matrix Reloaded (2003)

Alguns meses se passaram e Neo tá fodão: agora ele voa, anda todo de preto com óculos escuros, luta que nem o Bruce Lee e enxerga toda Matrix pelo que ela é, um conjunto de códigos. Ao mesmo tempo, Zion (a última cidade humana que resiste à brutalidade das máquinas no mundo real) enfrenta seu próprio fim, o plano para ser destruída de uma vez. 


Pra piorar tudo, o Agente Smith (que é derrotado por Neo no primeiro filme) retorna diferente. É um vírus que foi modificado pelo código de Neo e agora não obedece às leis da Matrix, o que o torna extremamente mortal (e um pé no saco). Enquanto Smith toma como objetivo a erradicação da existência de seu inimigo, Neo corre contra o tempo pra entender suas escolhas (salvar Trinity ou Zion), suas origens, e que mesmo a lenda d'O Escolhido possui suas maiores falhas: tudo parece ser armadilha. E nada é o que parece.




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MATRIX REVOLUTIONS — The Matrix Revolutions (2004)

O filme que menos gosto é também o mais bonito, visualmente falando. Na verdade, tanto o Revolutions quando o Reloaded são considerados "desnecessários" pra complementar o primeiro. Tá, todo o conceito de realidade e escolha foi explanada em 1999, mas Reloaded trouxe a discussão sobre destino e resultados paralelos (pra completar a discussão filosófica) e a transformação do Agente Smith em simples Smith — o vírus (que é essencial pra conclusão do enredo). 

Revolutions tem mais ação do que conteúdo, mas é aqui que vemos o ponto final das coisas (ou um dos pontos finais da vida, sempre com a repetição dos mesmos padrões com diferentes histórias). As máquinas conseguem escavar até Zion, que é defendida na unha, enquanto Neo viaja até a cidade das máquinas para pedir por trégua diretamente ao Deus das Máquinas (o cérebro central de toda vida artificial).


É proposto a Neo que Zion pode ser salva, mas haverá troca: Smith precisa ser deletado. Só que o vírus tá tão forte que passou a quebrar partes da própria Matrix (e até transferir sua consciência pro mundo físico), o que não torna a briga nem um pouco fácil. Mesmo assim, a última batalha é um espetáculo pros olhos, debaixo de chuva e com quebras de asfalto (quem viu O Homem de Aço vai comparar). Neo é o antivírus.

E o filme é meia-boca.




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ADENDO: O UNIVERSO EXPANDIDO

O que me faz amar ficção científica é a possibilidade de expandir seu universo. Em Matrix, os homens criaram as máquinas independentes (com inteligência artificial igual à nossa) e depois queriam eliminá-las, quando perceberam o que haviam feito (criado vida, assim como Deus fez na Bíblia e, da mesma forma, usou o dilúvio pra consertar a cagada). Só que as máquinas estão em todos os lugares, computadores, objetos, e tomaram o mundo pra elas. 


Pra acabar com o reinado humano na superfície, ativaram o lançamento de um míssil nanotecnológico (criado por humanos) que encobriu o Sol, fazendo com que fôssemos pra debaixo da Terra enquanto as máquinas se aproveitaram de nossos corpos nas encubadoras para gerar energia (pode dizer que existem outras formas de conseguir energia, de forma até mais eficiente, mas usar humanos como bateria faz parte do contexto simbólico). A partir daí O Arquiteto e A Oráculo programam a Matrix e tudo que há nela.

Histórias como essa e do universo expandido são contadas na série de curtas animados Animatrix. Em breve faço análise, mas recomendo assistir logo depois de terminar os filmes. É lindo! Matrix é lindo!

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