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Byzantium (2012)


Surpresa agradável pra quem é fã de vampiros. Não teria como esperar projeto ruim vindo de Neil Jordan, que dirigiu Entrevista com o Vampiro, o que também aumenta as expectativas e os riscos. Não tem efeitos especiais insanos ou vampiros voando. Na real, até os vampiros aqui são um pouco diferentes (não como em Crepúsculo, claro). É uma ótima perspectiva pra conhecer agora.

Enquanto tomamos banho de idiotices e histórias supérfluas sobre o arquétipo do vampiro, o roteiro de Moira Buffini resolve desenhar uma profundidade muito bem sustentada em bases de sacrifício por amor. Clara e sua filha Eleanor buscam um local pra viverem em paz há duzentos anos. Pra viver por todo esse tempo, seus corpos precisam de sangue fresco, então têm de lidar com a fome, falta de dinheiro pra se sustentar na nossa sociedade e, principalmente, com segredos do passado de Clara que Eleanor desconhece, mas que as persegue mortalmente.

Depois de assassinar um homem que sabia demais, Clara se muda com Eleanor mais uma vez, sem rumo certo, até chegarem numa cidadezinha fria perto da praia, onde conhecem Noel, que dá abrigo para ambas e oferece espaço para que ali um bordel comandado por Clara, possa sustentá-los. Enquanto sua mãe é movimentada por mentiras e interações sociais usando pessoas para fins diversos (como forma de esconder o passado dela mesma), Eleanor se mantém introspectiva e solitária, no desejo de um dia poder contar sua história a alguém, pois não aguenta levar tamanhas trevas nas costas.

Numa de suas caminhadas pela nova cidade, para pra tocar piano num estabelecimento. Um garoto se aproxima, encantado com a técnica, e faz várias perguntas. Ele se interessa de primeira. Com o tempo e as situações, eles se conhecem e ela enxerga uma chance de ser sincera com alguém sobre sua condição, seu passado e seus fantasmas ensanguentados guardados no fundo de sua alma.

Saoirse Ronan (de A Hospedeira) interpreta Eleanor, enquanto Gemma Arterton (João e Maria: Caçadores de Bruxas) interpreta Clara. Ambas são incríveis atrizes, cada uma dentro do arcano da personalidade de suas personagens, conseguindo preencher com emoções tangíveis todos os pilares que nos fazem acreditar que essas criaturas, abençoadas e amaldiçoadas, sofrem por sua imortalidade. Sofrem por não se encaixarem em lugar nenhum, se apoiando apenas uma na outra, pois a única verdade que poderiam discutir juntas já não se expõe por receio.

A atmosfera visual tem a mesma consistência do roteiro, um filme que usa cimento poético pra fincar o tom de realidade acerca de criaturas místicas a ponto de você realmente achar que eles podem ser seus vizinhos. Nada de brilhar à luz do Sol, de explodirem, de estacas no coração ou dentinhos afiados: o entorno cultural das vampiras apresentadas aqui partem do Loogaroo ou Soucriant, descritas nas lendas como vampiros-bruxa, mas também confundidos com uma espécie de lobisomem. É diferente do que estamos acostumados, e apesar do estranhamento inicial, essa nova proposta é fiel à história.


Dá pra dizer que Byzantium é um ótimo filme de vampiros e analogias sociais (principalmente para o sexo feminino), de diferencial adulto e humano. Debate questões que vão além de aceitação ou paixonite de adolescentes. Estamos falando de monstros com mais de 200 anos que se sentem completamente anacrônicos, caçados por seus espectros e que se comportam como os anciões que são! É tão maduro e inteligente que fica difícil dar uma nota menor. Para qualquer fã de vampiros, é mais do que obrigatório.




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