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Como se amar mais, 3: Raiva e projeções

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Tive um "amigo" que odiava assumidos. Mesmo sendo gay, achava que era culpa dos "afetados" não poder sair do armário, já que a ideia de homossexual era de um cara tentando ser mulher. Se sentia ofendido e atribuía a culpa pelo medo de se expôr a terceiros. Ao mesmo tempo, queria ser como esses caras, livre. O que ele fez pra se mudar?

No exemplo desse cara, além de ter tirado a culpa dos próprios ombros pra jogar em cima dos outros, desenvolveu profunda raiva por qualquer tipo de afeto romântico entre homens (porque mulheres, segundo ele, era aceitável e excitante). Então vestiu uma armadura: comportamento irritantemente machista, a ponto de coçar o saco pra se afirmar e expressar assustadora raiva contra qualquer um que não se encaixasse no seu padrão de "gay-homem-cospe-no-chão-porra".


Aí olhei a vida do cara: rapaz infeliz, cheio de "não me toques", encubado pra família, empurrando relacionamentos de mentira no trabalho (pois não era quem dizia ser, nem pela sexualidade, mas pelas atitudes) e sem uma pessoa sequer pra confiar, exceto por mim — adoro ajudar problemáticos. Aos poucos fomos conversando e ele foi se expondo mais. A cada atitude violenta contra coisas que ele gostaria de ter mas se negava, eu dizia coisas do tipo "olha bem pra isso e vê se tá errado. Estão te fazendo mal? Por que esses garotos com outros garotos incomodam tanto você?"

Tentei mostrar que a área de nossa amizade era livre de qualquer julgamento, que eu tava ali não só pra ouvir, mas pra apoiar qualquer mudança positiva na personalidade dele; e isso incluía admitir pra si que andar de mãos dadas com outros homens precisava ser normal. Com o tempo, surtou mais do que eu esperava e se fechou de novo, batalhando internamente com os ideias de liberdade que tentei plantar em sua mente contra o que ele tinha de parecer pra sociedade


Meses depois, ele se assumiu para a irmã, depois para os pais, e encarou todos os tsunamis dessas escolhas. Conseguiu um namorado por qual é extremamente apaixonado e que, por incrível que pareça, é o tipo de garoto por qual sentia repulsa, o que me fez achar que o moleque que ele levava pras sociais e apresentava a todo mundo com muito orgulho, era uma projeção positiva: tudo que meu "amigo" queria ser estava naquele namorado.

Por isso, às vezes atribuímos a culpa e odiamos pessoas sem saber exatamente o porquê. Se pararmos pra nos perguntarmos a razão, podemos chegar a simples conclusão que as culpamos pela situação que nos encontramos (num mecanismo de defesa que não nos faz ver que a culpa pode ser só nossa) e, além da culpa, as odiamos num tipo de admiração inversa, numa invejinha disfarçada. 


Por isso, esclareça pra si quem é você. Conheça suas preferências, saiba expressar para si seus limites e nessa etapa não tenha vergonha de dizer em voz alta pra você mesmo num quarto trancado. Diga alto, se olhando no espelho, que você é gordinho, que é gay, que é vesgo ou magrelo até não sentir aquele friozinho ruim na barriga de dizer ou escutar isso ricocheteando de volta nos ouvidos.

Mantenha sempre em mente que você existe pra ser feliz, que merece! Seu ideal de personalidade pode ser uma mentira, aquela vontadezinha de se encaixar em algum lugar por não querer encarar o mundo na solidão. Posso te dizer? A partir do momento que não sentir vergonha ou se culpar por ser do jeito que é, vai emanar tanta sinceridade e confiança que não haverá como continuar sozinho. 


GUIA COMO SE AMAR MAIS

Parte 1 - Introdução
Parte 2 - Autodepreciação e Comparações
— Parte 3 - Raiva e Projeções

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