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Namorando um cara no armário

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Um relacionamento precisa acontecer apenas entre os dois envolvidos (se for poliamor, mais de dois) e mesmo que excessos de demonstrações públicas de afeto causem nojo, é chato não poder pegar na mão do namorado na hora de caminhar no shopping ou trocar um selinho rápido enquanto dividem um McMelt. Até acontece entre homens e mulheres, mas entre dois caras é insuportavelmente comum.

Toda vez que assisto um casal se beijando, torço a cara. Acho feio quando esses carinhos ganham tons esdrúxulos, exagerados: ninguém é obrigado a assistir. Não por falso moralismo ou política de boa educação, mas dói, gente. Dói em quem é solteiro, sabia? Sem falar que deixa pessoas mais tímidas (ou com crianças) muito sem graças. Até na TV incomoda! Um beijinho, abraço ou cotovelos enganchados não fazem mal. Feio é o montante de baba e língua que ficam charmosos quando guardados pra cama.




Dentro da concepção de relacionamento (e uma das coisas mais legais dele) é ter pra quem dar a mão quando passear na rua, ter um abraço pra dividir quando o ar-condicionado do ônibus ficar muito forte ou quando, numa reunião de família, agarrar o parceiro pelo pescoço e não soltar até ser necessário. Por isso, dá pra se sentir fora de contexto quando a gente percebe que casais heterossexuais têm a liberdade pra fazer o que casais homossexuais desejam e pouco se permitem por razões culturais (e de sobrevivência).

Entre quatro paredes, o cara é carinhoso, obliteravelmente amável e nunca cansa de dizer o quanto te ama. Na rua, pode assumir um comportamento distante, travado e frio. Cabe a nós entendermos que nem sempre é por maldade, mas por simples receio. O mundo em que vivemos, mesmo da visão mais otimista, nos deixa sujeitos a todo tipo de violência — por qualquer razão. Dar a mão pra outro cara é ter coragem pra assumir não apenas o relacionamento, mas a possibilidade de entrar covardemente numa briga.




Quando não pela perspectiva agressiva, há o embaraçamento de ser visto como atração de circo, objeto de crítica e discussões. É chato saber que estão cochichando sobre vocês. Não é justo, claro. Se sentir "obrigado" a não tocar quem você ama em público, leva de volta aos tempos em que usar folha de alface pra curar machucado era coisa do diabo, uma atitude que faz com que as pessoas queiram que você morra! Isso é absurdo, não? Quase inacreditável. Quase.

Um passo de cada vez. Namorar um cara que não tá pronto pra se expor (ou você sendo esse cara) dá sensação de pique-esconde, que o relacionamento precisa estar oculto, mas não deveria ser fundamental pra definir a vida útil do que vocês têm. É o que sentem um pelo outro que define isso. A partir de então, depois de algumas semanas ou décadas, surge um carinho no portão de casa, um beijinho na testa no ponto de ônibus. Apesar de nossa sociedade estar mudando, relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo só serão tratadas como normalidade depois de uma ou duas gerações daqui pra frente.




Assim, perder tempo demais se preocupando com exibição é meio estúpido. Que nunca deixemos de lutar por nossos direitos de amar e viver bem em sociedade, pois nascemos pra sermos livres! Não fazendo mal a ninguém, qual o problema de ser feliz? Que um dia julguem demonstrações públicas de afeto apenas pela vulgaridade, pela grosseria do ato, jamais pelo gênero ou condição sexual de quem está beijando.


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