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Cocô: você fala sobre isso abertamente?

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"Seu cu é tímido?", me perguntaram. Levei pra maldade, óbvio: "é sim, tá guardadinho dentro das calças". A menina riu e explicou: "tô falando pra fazer caquinha, ele é tímido ou faz em qualquer lugar?". Nem um pouco tímido com a pergunta, respondi de pronto que não tenho tabus sobre quem faz, mas carrego um ritual higiênico que me limita a qualquer lugar.

Existem momentos e momentos pra falar de cocô. Um deles é nesse post, que à primeira vista parece sem noção ou encheção de linguiça, mas a discussão de como nos comportamos ao falar sobre algo básico e irreparável no funcionamento de nossos corpos cabe aqui, já que tudo que ignoramos se torna monstro no armário. Foi assim com a escravidão, com o crescimento do preconceito sexual e assim é com o pobre cocô: enraização de conceitos negativos.



Porque a primeira imagem que vem à cabeça quando se fala cocô é de nojeira. Na real, é tudo que não presta no teu corpo sendo botado pra fora por um buraquinho esquisito — por onde pessoas insistem em enfiar frascos de maionese e objetos indevidos. Discutido numa roda de amigos, num site da internet ou num comentário esporádico na rua, é uma coisa. Outra é trazer o dito cujo pra um jantar, por exemplo.

Tá todo mundo comendo e vem o engraçadinho da família pra falar de baratas, bostinhas ou assassinatos horrendos: cara, para! Tá feio! E quando aquele seu amigo sem filtro diz que vai no seu banheiro dar uma barrigadinha fofa? Muita informação, benhê! Deu pra entender o sentido de conversar sobre um componente biológico e algo que poderia ficar implícito, subentendido? Não precisa levantar bandeira! Levante pra defender tamanduás chineses ou a extinção das baleias, não pra cagar.



Quando o namorado avisa que vai fazer cocô, não dá aquela vontade de ir embora? Acontece pela associação e momento: em nosso conceito de romance, o parceiro não faz nada impuro, e isso inclui praticar arte barroca em porcelana. É ruim porque inibe discussões médicas sobre problemas que poderiam ser tratados e evitados, como inflamações na hemorroida (chupa essa, Cadu), ruptura anal (pelo sexo ou por fazer muita força) e constipação, que podem ocasionar diarreia, má circulação e inchaços (Activia não resolve tudo).

Não precisa ser fresquinho e nunca falar "cocô" sem fazer careta ou deixar de falar dos amigos sobre a rotina orgânica do seu corpo quando necessário, mas também não dá pra querer  incomodar ou ser apático: nem todo mundo tem sua cabeça liberal e bem resolvida de que todo ser vivo precisa cuspir pelo lado de baixo. De novo, existem momentos e momentos pra falar de tudo na vida. Por onde sai seu McChicken com fritas, pode (e deve) ser de conhecimento só seu.


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