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Sair com gringos: trocando coelho por lebre

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Quando aceitei que morreria sozinho, passei a buscar os relacionamentos que abominava: com tempo de vida determinado. Mais precisamente, com tempo de vida determinado e imutável. Passei a usar um famoso site/aplicativo de namoro online e não demorei a achar solução pra minhas crises de carência: gringos. Além de muitas histórias pra contar, sair com estrangeiros expandiu meus horizontes, inclusive sobre mim mesmo.

A gente tem a tendência de engrandecer tudo que vem de fora, inclusive pessoas. Falar que saiu com gringo deixa no ar aquela ideia de que anda procurando — e escolhendo — nos lugares certos. Pelo menos era esse o pensamento dos que ouviam minhas experiências. Talvez por serem de diferentes locais, exóticos, fora do que estamos acostumados a lidar no dia-a-dia. 

É legal falar outro idioma, conversar sobre outros hábitos, passar o dia na rua e subir pra uma cama de hotel. É legal zapear canais com alguém que tem horas contadas pra partir, alguém que não poderá gerar vínculo algum — mesmo assim, nos forçamos a correr riscos emocionais desnecessários, porque somos estúpidos. Brincar com essa validade é gostoso, faz surgir aquele pensamento de aproveitar tudo ao máximo, tendo de podar possíveis apegos ao mesmo tempo.



Antes de se envolver com uma pessoa que viaja tanto, é preciso entender que a prática de desapego dela é maior. Por sempre buscarem sensações em novos lugares (consequentemente em novas pessoas), o conceito de lar fixo deixa de ser aplicado da mesma maneira que é para você, que está em sua própria cidade, a um ou dois ônibus de distância de voltar para casa. 

Dentro de experiências seguidas com gente de fora, sem buscar nada diferente (mesmo que as escolhas sejam subconscientes, que você não perceba claramente) é necessário observar se está desenvolvendo um tipo de vício em sair com gringos. É o mesmo esquema de se viciar em heterossexuais, de se apaixonar por pessoas impossíveis, usando a indisponibilidade emocional delas pra não ser responsável pelos sentimentos de ninguém além dos seus próprios, por medo de envolvimento com alguém que realmente dependa de você. 



O Planet Romeo é muito usado na Alemanha. O Brasil, apesar de poucos usuários, reúne uma ótima safra de pessoas dispostas a tudo: de longas conversas a sexo sujo. Cruzei (sem trocadilhos) com muitos gringos e me apaixonei dolorosamente por um argentino (logo um argentino). A gente passava tanto tempo junto que morei com ele durante uma semana num apartamento minúsculo, sem me importar com nada, voltando pra casa pra dizer que tava vivo e pra pegar roupas limpas. 

Foi o maior love! Nessa época, eu ainda não gostava de dormir de conchinha, mas foi ele que me deu as melhores noites de sono em meses e o melhor orgasmo com sexo oral da minha vida (na realidade, o primeiro). Era tudo! O cara era feio que nem o capeta, mas tinha charme, jeitão de moleque e um sotaque tão delicioso que não vi outra solução a não ser me apaixonar perdidamente. 



Até que na noite anterior ao lançamento de meu conto no livro de crônicas da FLUPP Pensa 2012, ele me disse que tinha um namorado na Argentina que sabia de mim (tava rolando um "vale-viagem") e que eu deveria me sentir feliz por tê-lo feito duvidar, mesmo que por algumas noites, daquele relacionamento de sete anos. Sete, mano! É um livro do Harry Potter por ano, cara! Enfim, fiquei na bad, afundei que nem cachorro na lama e fui pro lançamento me sentindo o cocô do cavalo do bandido. Até escrevi um texto pra desapegar aqui no DDPP.

Foi quando realizei que me apaixonei pelo gringo justamente por saber que a gente acabaria alguma hora. Por ser viciado em dramas e com sérios problemas pra aceitar cuidados sobre outras vidas, preferia chorar por alguém do que ter alguém chorando por mim, ou seja, preferia me apaixonar por quem não poderia ter do que estar com alguém de verdade, me tornando responsável por quem estava jogando pra se responsabilizar por mim. 

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Sair com gringos só é legal pela possibilidade de aprender algo novo, de alimentar curiosidades, só não ache que é solução para todos os problemas. Se pensa que "brasileiro é tudo igual", deixe de imaginar que "gringo é muito diferente". Pessoas são pessoas. Claro que culturas influenciam no comportamento, mas numa realidade tão globalizada, muito se mistura, principalmente no que diz respeito a sexo.

Abra sua mente para conhecer pessoas. Se prefere uma aparência específica, tudo bem, mas não classifique nacionalidades, não meça atitudes por diferenciações territoriais. Há muito o que aprender com todos. Se acha que não aprendeu nada com quem te cerca, duvido que vá aprender coisas úteis lá fora. 

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