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Histórias que perdemos e que só acontecem uma vez

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Conhecia essa amiga desde pequenininho, a ponto de sermos parentes de coração na família um do outro. Uma de nossas conversas favoritas era sobre virgindade, como ela se preservava por não se achar pronta. Depois crescemos, mudamos, nos afastamos, e às vezes o fantasminha vinha perguntar "será que ela ainda é virgem?" Será que deixei passar uma das maiores experiências da vida dela?

Porque contávamos tudo um pro outro. Prometemos entregar as novidades de bandeja, empolgados. Imaginar que perdi um marco desse tamanho — ou quaisquer mudanças menores do cotidiano que a transformassem numa mulher, mais que uma menina — conseguia me deixar na dúvida se tinha lutado o suficiente pra nos mantermos unidos. Em seguida, me conformava de que nem tudo está sob nosso controle.


Imagem: flickr.com/photos/efaja

Também considero as coisas que ela perdeu: a paz que conquistei em casa, as praias que descobri, a tatuagem que desenhei, minha coragem em deixar a vida virtual de lado pra investir na rotina que fugia, na que demandava presença física. Enquanto acreditei que tinha perdido o momento único de ver a borboleta sair do casulo, ela perdeu o nascimento de um cara receptivo, tentando se reciclar. O fato é que os dois perderam.

É nauseante pensar que daqui a alguns anos, quando nos encontrarmos pra um jantarzinho com a desculpa de "colocar o papo em dia" pra matar uma saudade que nunca desapareceu, vamos nos dar conta de tantas coisas que não vivemos juntos. Nos sentiremos estranhos falando com pessoas tão familiares, só agora conhecendo os filhos, descobrindo que os pais faleceram, soltando "uau" pra linda aliança no dedo, e reclamando de uma rotina de trabalho que virou carreira, coisa séria.


Imagem: elapartiu.wordpress.com

Melancólico, claro. Mas talvez fosse necessário o afastamento para que pudéssemos crescer individualmente. Acredito que as pessoas entram em nossas vidas pra nos ensinarem. Não num sentido religioso, e sim racional: dá pra aprender de tudo! Quando temos a lição em mãos mas nos acomodamos, não crescemos, não nos desafiamos. Apoiamos um no outro e caminhamos ao invés de correr. 

Por assim ser, não gosto de olhar as histórias perdidas com tristeza. Gosto de pensar que cada pessoa é uma estufa de tamanho diferente para nós, plantinhas: quando crescemos e ficamos apertados na redoma, precisamos passar por outras e outras, até voltarmos à terra. Não para nos enraizarmos e congelarmos, mas para expandirmos os ramos nos caminhos subterrâneos. Afinal, o subjetivo é parte do substrato da vida, mesmo que não o entendamos por inteiro.


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