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Tentei suicídio e aprendi 20 lições sobre viver

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O DDPP ficou sem atualizações porque tentei suicídio. Apesar de não ser segredo para meus amigos e familiares desde meus 14 anos, ninguém esperava que eu fizesse — nem eu. Me continha pensando no trauma que causaria naqueles que me amam, no egoísmo de morrer e deixá-los culpados. Porém, depois de morto, que diferença faria? Mas sobrevivi. Agora venho compartilhar o que aprendi.



POR QUE TENTEI ME MATAR?

Por mais que eu fale e fale, nunca vou te fazer compreender o que leva alguém a se matar, mas dá pra imaginar que quem se mata, busca não existir, não estar em lugar nenhum, nunca mais. Sempre me considerei um garoto de sorte, amado por todos e doido para amar todos de volta, mas minha crescente sensação de isolamento, cobranças de uma vida que não queria levar e o início de minha apatia por mim, me trouxeram a isso.

Em resumo, eu sabia de minha importância para as pessoas, mas havia perdido o valor de mim. Desacreditei de meus planos e, quando percebi que talvez meu sonho de viver como escritor jamais fosse se realizar, perdi motivações para continuar fazendo o que amo. Passei a pensar demais no destino, não na jornada, e esse destino parecia perda de tempo. Quando a gente perde sonhos, motivações e a vontade de viver, como continuar?

Antes de desmaiar, tirei essa foto e postei no Facebook. Ninguém fazia ideia do que tava rolando.


20 LIÇÕES QUE APRENDI AO SOBREVIVER

Não tente decifrar o amor, apenas sinta. Como disse, sou um garoto de sorte, querido por todo mundo. O problema era que eu racionalizava o amor que recebia e oferecia. Sentimentos intensos como esse não foram feitos para serem processados pelo cérebro porque (a) estão além do que podemos compreender (b) perdem o sentido se virarem simples "rastros químicos" na composição biológica humana. Ame e seja amado sem saber por que. Não dá pra encontrar a resposta na tabela periódica.

Aceite que depressão existe e pode ser tratada. O câncer emocional da modernidade, pra mim, era uma escolha. Por isso, nunca admiti que tenho depressão, não que fico depressivo vez ou outra. Tristeza e auto-ódio podem ser provenientes de traumas (alguns que você nem lembra ou percebe), alimentação ruim e até falha química do corpo (ambos por falta substâncias que nos permitem sentir alegria com mais frequência). Aceitando que essa doença é real, descubra como tratá-la.

Peça ajuda. Quando tinha problemas, me calava para resolvê-los sozinho porque (a) ninguém poderia resolvê-los por mim (especialmente os da minha cabeça) (b) por medo de acharem que eu só queria chamar atenção. Por mais que imaginemos que ninguém liga ou se importa, já pensou em pedir ajuda? Não só de amigos e familiares, explicando como se sente e no que poderiam ajudar, mas assistência psiquiátrica (redes públicas possuem ótimos profissionais, em breve falarei disso). Diga o que precisa e o porquê. Não leve o mundo nas costas.

Se chegou no crítico de não querer existir, significa que não tem nada a perder. Por isso, a partir de agora, vire sua vida ao contrário: faça o que quiser fazer (desde que não cause mal intencional a ninguém). Mude de emprego, largue emprego, abandone aparências, se afaste de colegas, se aproxime de amigos, mude de cidade pedindo carona! Faça o que der na telha! Se depois disso ainda não quiser existir, poderá dizer tentou o suficiente.

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Se cobre menos. Pare de se criticar. Dê o melhor que puder, mas não ultrapasse seus limites. Não imponha regras ou se considere lixo caso tenha cometido um erro. Acontece. É fazendo cagada que a gente aprende a limpar o bumbum. Se leve menos a sério, permita ser idiota e preguiçoso quando necessário.

Espere apenas o amor que as pessoas podem dar. Em vez de criar expectativas e se frustrar, compreenda que seu pai pode te amar muito, mas não consegue compreender seu estilo de vida. Entenda que aquela amiga te adora, mas possui gostos totalmente opostos. Em vez de querer que o mundo vire um filme americano, se transforme numa filosofia oriental. Obviamente, ofereça apenas o que pode dar.

Contemple cada momento como milagre. Como uma chance única! Não precisa acreditar em deuses, mas como um milagre seu. Fazendo isso, tornando interessantes as coisas mundanas, você agrega valor à vontade de observar e viver consigo, com pessoas e situações que o cotidiano oferece.

Seja menos fútil. Você quer um iPhone por que é necessário ou pra ostentar? Só compra roupa de marca por que tá querendo se provar? Dinheiro resolve alguns problemas, sim, mas o que não resolve é sua necessidade de aparentar algo que não é para o mundo aceitar/admirar/invejar. E quando a gente não tem dinheiro, fica triste por ser fútil e pobre, excluído daquelas fotos do Tumblr onde gente que paga 3 mil reais em celular e 7 mil num computador sorri feliz.

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Porém, seja menos profundo. Quem questiona tudo, o tempo todo, se torna menos feliz. Porque existem coisas que não precisam de análise racional (volte ao item 1 da lista), e quanto mais dúvidas, menos confiança (em si e no ambiente). Equilíbrio é o trunfo da vida.

Exista para si, não por alguém. Não é a mesma coisa que se isolar. Não depender é amar as pessoas, mas compreender que você é uma vida singular, compartilhando momentos acompanhados. Isso previne de achar que sua vida só faz sentido se "fulano" fizer parte dela. O mundo muda, pessoas morrem e vão embora. Aprenda a guardar boas lembranças, se desfazer de rancores e, especialmente, seguir em frente.

Mude seu conceito de "aproveitar a vida". Desde meus 15 anos que bebo. Percebi que quando ficava triste, álcool se inseria nas minhas programações "sem querer": tava bolado? Ia pra casa de alguém beber. Triste? A mesma coisa. Quando estava feliz, nem tocava na vodca. Ao voltar à vida, percebi que depender de álcool para me divertir me deprimia. Me senti fora de controle e fui buscar um novo jeito de "aproveitar a vida" (escrevendo, fazendo cabana de lençol e vendo mais filme com amigos), coisas mais saudáveis mental e fisicamente. Quando o corpo tá bem, a mente também, e vice-versa.

Pare de colocar as pessoas em primeiro lugar. Seja gentil, mas não tome para si os problemas dos outros enquanto não resolver os seus.

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Pare de querer agradar todo mundo. Talvez ninguém esteja querendo agradar você (e se estiverem, reconheça quem faz e tente devolver o carinho, pois só vale a pena amar quem te ama).

Tenha uma lista de sonhos possíveis e comece já a correr atrás deles. Trace planos baseados na sua capacidade, deixe as incertezas de lado; invista no que acredita e se esforce para isso. Eu decidi que quero ter renda só da venda dos meus livros, mas com apenas duas obras fica complicado alcançar o objetivo. Por isso, meu plano é escrever o máximo de livros que puder ainda esse ano. De segunda à quarta, das 9h às 18h, trabalho em meus livros. Meu horário de almoço é das 13h às 14h, e a cada hora ou capítulo fechado, levanto para descansar os olhos, me espreguiçar e ouvir música. Faço o que posso no momento.

Nunca se arrependa do tempo que "gastou" em iniciativas que não deram certo ou jogando videogame, enquanto poderia fazer algo mais "construtivo". Pense que esse tempo foi "investido", necessário para você ter a cabeça que tem hoje. A gente nunca regride nos aprendizados. Evoluir é natural e baseado em erros, no modelo tentativa-falha-aprendizado-aplicação-sucesso.

Resista menos às mudanças. Em vez de fincar o pé e querer que as coisas fiquem no mesmo lugar, compreenda que a vida muda. Temos dias ruins, dias ótimos, e possuir flexibilidade para retirar o melhor de cada vai implementar seu humor. Se gastar energia segurando um avião no chão para que não decole, vai ser arrastado, cair e morrer. Aceite que o avião vai decolar e que certas coisas estão fora do seu controle. Faça parte da natureza orgânica da vida: seja flexível.

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Remédios abrandam consequências, não causas. Por isso, conheça-se para entender de onde vem o que incomoda. Vá ao psicólogo e não se medique sem indicação. Para achar o foco de minha melancolia, fiz uma lista com tudo que me chateava. Demorei dois dias e muito choro para descobrir que 90% dos problemas poderiam ser resolvidos com uma só palavra: "não"

Passe um dia de cada vez. Você tem tempo! Amenize a ansiedade tendo noção de que o tempo não vai se mover mais rápido. O que vai se mover mais rápido é teu caminho pro estresse, a falta de fé em si e o literal medo de fracasso. Se o dia não estiver bom, corra pra cama e durma. Amanhã será uma nova chance.

Movimente o corpo. Faça esporte, malhe (amanhã sai um guia para malhar em casa!). Além de aumentar autoestima e emagrecer, melhora o sono e alivia a quantidade de pensamentos que seu cérebro inquieto faz por segundo. Lia isso nos sites de bem-estar e não levava a sério. Desde que voltei, comecei a me exercitar: todos os benefícios se confirmaram.

Tenha fé em algo. Qualquer coisa, desde que seja sincero. Se não consegue acreditar em nada, acredite em si. Você é a maior representação de que milagres acontecem: único, não existe igual. Em vez de se sentir um cocozinho num mundo grande, pare de olhar de cima para baixo. Se olhe de dentro para fora: no seu mundo, sua rotina, você é o sol e as pessoas são planetas girando ao redor. Só não transforme num discurso egocêntrico, pois fazemos parte de uma corrente. Somos feitos com poeira das estrelas, representações proporcionais de todo o universo.



CONCLUSÃO

Foram 20 comprimidos que dopam o sistema nervoso e um monte de álcool pra engolir. A promessa, depois que li na bula e nos sites sobre overdosagem dessa substância, era de que eu:

(a) morreria por insuficiência respiratória, pois meus pulmões parariam de funcionar;
(b) entraria em coma.

O erro de cálculo — que acabou virando acerto de sorte por qual me sinto agradecido — foi a opção oculta (c) sobreviver. Sem sequelas. A escolha de viver ou morrer é sua. Se quer ir, vá. Apenas pense antes:

(1) a única certeza que temos é de que todos morreremos, certo?
(2) sabendo que vamos morrer, por que não viver do jeito exato que queremos?
(3) se você quer se matar por se considerar um fracasso, viva como um fracassado tentando dar certo ou mude sua área de atuação (não importa idade, seja criativo). Ou abandone tudo. Se quer se matar porque seus pais não aceitam sua sexualidade, assuma e que se foda o mundo. Entende?

Lembre-se que sucesso é a jornada, não o destino. Nosso destino é a morte. Realização é quando percebemos que podemos fazer o que quisermos com a vida — não causando mal a ninguém, claro. Não compita ou batalhe consigo. Pense em você. Ame você. Se precisar de uma palavra amiga, corra pra página do DDPP no Facebook pra gente conversar.

Pra completar, tem vídeo no vlog sobre o assunto, de como sou agradecido!


Enquanto você não desistir de você, eu também não vou. Porque te amo sem nem te conhecer, e não preciso que você entenda para que seja real. Amor é, definitivamente, a resposta para "o que estamos fazendo nesse planeta?".

Caso esteja considerando o suicídio, tem o CVV - Centro de Valorização da Vida. É uma entidade para qual você pode ligar, mandar e-mail ou usar o chat. Voluntários que passaram por algo parecido estarão prontos pra te ouvir desabafar, sem julgamentos. Antes de qualquer decisão drástica, ligue 141 ou acesse o site www.cvv.org.br. O mundo precisa, sim, de você.

E se quiser viver melhor, 25 dicas de quem teve de morrer pra aprender:




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