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Criando memórias num acampamento improvisado

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Sob chuva, frio e falta de comida.
Enrique Coimbra - Discipulos de Peter Pan

Tem vezes que a possibilidade do "por que não?" fica mais intensa. No caso, fui para a casa do namorado de uma amiga para que matássemos a saudade — um ou dois anos sem nos vermos deu nisso. No domingo, depois de meu exagero com vodka de blueberry que resultou numa vomitada verde danada — não percebi o quanto estava bebendo, de tão gostoso —, aceitamos o calor apocalíptico da rua como um convite pra praia. Pilhamos pra mais: acampar na Praia do Perigoso — já falei dela aqui e tem relato do meu camping aqui.

Pegamos o forno portátil e uma colcha pesada, sem falar na minha mochila que já tinha uma manta, minha barraca — que levei pra montar na casa dos meninos, pois achei que não teria onde dormir — e esquecemos da panela, água e comida. Por sorte, eles ainda compraram três garrafas de água na rodoviária, pois o único mercado aberto estava em promoção de aniversário — o que tornava a travessia dentro dele impossível sem correr o risco de sair paraplégico. Em menos de duas horas, estávamos de cara para o anoitecer, saindo da trilha na praia e recebendo convite repentino para um luau que rolaria mais à noite.

Da esquerda: Carolzinha, Carol, Enrique, Alex e Anderson
Enrique Coimbra

Só que o frio começou a ficar insuportável e o tempo mais feio. Havia reflexo natural da lua escondida nos céus, mas teve uma hora que uma nave espacial pareceu ter estacionado sobre nossas cabeças: uma nuvem tão preta e densa que parecia o fim do mundo! Mas lá aguentamos até o luau acontecer. Tinha um cara tocando Charlie Brown Jr., O Rappa, Pitty e bandas de reggae que eu não conhecia, com vários rapazes diferentes em volta da fogueira que aquecia nossa cara enquanto nossas costas congelavam. Rodava pinga de canela (que eles chamavam de "canelada") e a melhor energia de paz e conforto que uma noite na praia poderia oferecer, sem nenhum preparo para caber cinco pessoas numa barraca de duas.

Era tanta a hospitalidade dos caras que não ligaram pro fato de que um dos grupos que se juntou a nós era composto por gays sem vontade alguma de esconder isso. Transcendemos à verdade de que éramos pessoas buscando tranquilidade e memórias duradouras. Não havia preconceito com o garoto que beijava garotos ou com o cara que exagerou tanto nas drogas que perdeu consciência do mundo — ou tomou toda consciência de uma vez. A gente cantou, se enrolou na manta, meteu a cara no fogo e riu da situação depois que deixamos de temê-la. Afinal, o que poderíamos fazer?

Enrique Coimbra
Praia do Perigoso - Rio de Janeiro

Não esperávamos a chuva, mas a noite tinha caído e estávamos sem lanternas. Mesmo que parecesse três horas da manhã, ainda eram onze, e teríamos de aguentar até o Sol nascer. Reclamaríamos do clima? Esperaríamos que um raio caísse e a areia conduzisse eletricidade aos nossos pés? A gente foi pro paraíso esperando uma recepção calorosa da natureza, mas se nos afundamos na merda sem querer, que diferença faria rolar na lama? Abraçamos a chuva e o frio. Se molharia a barraca toda? Que se danasse. A gente só queria ficar bem — e ficamos.

Dormi na barraca de um cara que conheci naquela noite pra aliviar a quantidade de gente que dormiu na minha (quatro pessoas numa barraca para duas). Acordei às oito da manhã — já com horário de verão — e agradeci ao Thiago Cantor da Disney que animou a noite toda com o irmão violeiro e me deu lugar quente pra descansar. Voltei pra minha tribo e começamos a arrumar as malas para pegarmos a trilha de casa com uma energia diferente pulsando.

Praia do Perigoso - RJ
Enrique Coimbra
Praia do Perigoso - RJ

Foi a experiência máxima de que se as coisas derem errado, chega um momento em que o pior para de piorar. Há um limite para a quantidade de desgraças na nossa rotina. É também o que você vai considerar desgraça que muda sua perspectiva sobre o carpe diem. Dos ventos congelantes, da chuva impiedosa e da falta de local pra dormir, fizemos um suco de "vamos ficar acordados até quando der porque estamos juntos e não adianta se estressar por coisas que não podemos controlar". O que pudemos, controlamos: nosso espírito e foco.

Do que poderíamos considerar um erro, aceitamos tirar um de nossos melhores acertos.

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