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Conheci no Grindr: Salvador

Conheci no Grindr: Salvador
Este relato possui conteúdo impróprio para menores de 18 anos. Falo de drogas, sexo e risco pessoal ao andar com estranhos — o que não recomendo. Minha intenção não é influenciar ninguém, então se acha que vai querer repetir isso na sua vida, pare de ler esse post e vá descobrir quem você é e do que gosta de verdade. Eu sou eu, você é você e cada um é cada um.

Este artigo faz parte do projeto Melhor Verão da Minha Vida 2015. Clique aqui para ver todos os posts dessa categoria e acompanhar minhas aventuras no Rio de Janeiro na estação mais quente do ano!

No dia 4 de janeiro, domingo de tédio que antecipava o fim das minhas férias, fui convidado para tomar banho de piscina na casa de um amigo. Por ter bebido na sexta-feira, me esquivei de todas as Stella Artois com a mesma habilidade com que desviava das bolas de queimado nas aulas de educação física do ensino fundamental. Só que a noite sempre muda o temperamento das pessoas. Para algumas chega o sono, o tédio ou a fome ideal para atacar a geladeira a cada trinta minutos. Para mim chega como uma onda poética que destila apetência por aventuras.

Começamos a falar sobre experiências com drogas: LSD, maconha, álcool e cigarros. Falamos de como é ruim passar o dia inteiro chapado, mas como é perfeito fazê-lo em momentos ideais, tornando a ocasião especial. Quando converso sobre drogas ou revivo aventuras na mente ao contá-las para amigos, fico com vontade de criar mais memórias desse tipo. Fiquei com vontade de fumar maconha e tomar alguma coisa, assim como quis fumar ao menos um cigarro para fechar a noite e matar o meu "demônio" — entenda melhor no artigo "Libere seus demônios: razões para fazer merda vez ou outra".

Pedi socorro aos amigos pelo Whatsapp e Facebook: ninguém tinha — e quem tinha morava longe do Recreio dos Bandeirantes, onde eu estava. A solução foi correr para o Grindr, aplicativo de relacionamento entre homens, e mudar meu nick para "4:20 me salve" com uma foto meio sexy (abaixo). Uma chuva de mensagens apareceu em menos de dez minutos. Um cara chamou minha atenção pela simpatia com que me convidou, mandando foto e dizendo que não buscava sexo — o que eu não daria como pagamento. Na minha cabeça, se o cara me convidou para fumar com ele, seria apenas isso que ele teria.

Enrique Coimbra

Rodrigo* me mandou a localização dele e eu mandei a minha: estávamos a algumas ruas de distância. Marcamos de nos encontrar em dez minutos, então saí da casa do meu amigo sedento para exlplorar a noite que até então estava careta, apesar de divertida. Segui meu caminho apressado e o cara forte, da minha altura, buzinou para que eu entrasse no carro. Após apresentações formais com aperto de mão e repetições de nome, estacionamos no prédio dele e subimos para enchermos dois copos com vodka e guaraná. Fumamos uma ponta — é como chamam a "guimba" da maconha, um pedacinho só — e outro apertado — um cigarro de maconha já feito — que ele tinha pronto. Falamos sobre nossas vidas e nos surpreendemos ao ver como, por termos o mesmo signo, temos comportamentos parecidos.

Quando relacionamentos de uma noite só acontecem, mesmo que não role nada sexual — sou gouine, leia o artigo "O que é gouinage?" e "Como contar pro cara que você não gosta de penetração" —, acabo me apaixonando pelo que posso imaginar, mas ao mesmo tempo não quero desenvolver nada além dessa única noite por não querer ter nada sério com ninguém — leia "Conheci no Grindr: Namorado #3" e "Amor ao primeiro stalk". Não que eu seja um desalmado, só que a cada dia tenho menos vontade de estar num relacionamento romântico. Minha necessidade de ter um namorado cai mais e mais, e só de pensar em toda a manutenção que eu deveria ter com a pessoa, de marcar de sair, de deixar de trabalhar para dar atenção ou ter de explicar coisas do meu comportamento que não sinto necessidade de explicar para ninguém além de mim, me travam.

Por isso quando sentamos na varanda e fumamos alguns cigarros, vesti um personagem despreocupado e cínico: "a gente não vai se ver de novo, então podemos ser o que quisermos". E eu fui o imperturbado de mente aberta e respostas ácidas que deixou o Rodrigo de boca aberta. Acredito que ele esperava um garoto fácil, cheio de minhoca na cabeça, não um "moleque de 22 aninhos com cara de surfista que é inteligente e escreve livros". E que apesar das tentativas hipócritas e sacanas da parte dele, entre beijos na boca, não cedeu ao sexo oral ou foi para a cama. Quando me perguntou por que eu não quis transar, só tive uma resposta:

— Não te conheço. Não vou dar minha bunda para um cara que nunca vi.

— Então você é ativo? — ele perguntou.

— Sou virgem — menti. Mais ou menos. Entenda que por ser gouine eu não sinto prazer em ser passivo ou ativo, apesar de já ter sido ambos em situações diferentes, por experimentação e tentativa de me encaixar no padrão "comum" do funcionamento sexual humano. — Não quero que minha primeira vez seja com um cara que vai gozar e pedir para eu ir embora depois. Me amo muito para ser amado pouco por um estranho.

Mesmo com investidas contra minhas calças, ele entendeu o recado e pude perceber nos olhos que aquilo o surpreendeu. É uma coisa comum a todos os caras com quais me envolvo: eles não esperam que um garoto "bonito" possa ser interessante — falei melhor disso no vídeo "Bonito x Interessante". Não que eu tenha prazer em ser difícil. Admito que gosto dos romances de uma noite e todos os joguinhos para compreender a psiquê humana durante o envolvimento, mas é que eu, simplesmente, não sinto tesão fácil. Meu corpo pode reagir a um toque quente, mas minha vontade de arrancar as roupas não é determinada pela explosão de testosterona na minha cueca. Minha vontade de deitar com alguém é ditada por quanto a pessoa excita minha mente, mexe com meu senso de controle e me surpreende — leia o artigo "Excite meu cérebro antes do meu corpo".

Como ele precisava dormir e eu me senti incomodado por termos chegado no clímax negando o que ele esperava que aconteceria — admitindo ou não —, notei que era hora de partir. Ele me levou de volta ao condomínio do meu amigo, me pediu mais um beijo e que não perdêssemos contato. Admito que seria legal passar um pouco mais de tempo com ele, um cara exótico, bonito e parecido comigo em aspectos que até eu me nego em admitir. Por outro lado, sei que esse tipo de "tratamento romântico na hora do adeus" é comum por homens dissimulados que ao contrário de mim, que manda a realidade na lata com uma quantidade saudável de sarcasmo e cinismo, inventam um personagem doce que vai ignorar todos os seus convites para as próximas festas — e até te bloquear no Whatsapp depois. Já falei disso no vídeo "Homens babacas!".

Só que a partir do instante em que você aproveita o momento 100% do seu jeito e oferece um pouco dessa energia para a pessoa, você não se frustra se a história não tiver futuro. Você curtiu o que tinha em mãos, o que foi real, deixando de sofrer por coisas que poderiam acontecer — ilusões e expectativas. Falei melhor sobre isso no artigo "Não chore porque acabou, sorria por ter acontecido", "Conheci no Grindr: Taurino" e "Expectativas amorosas: ter ou não?". Mesmo que a gente nunca mais se veja ou se fale, voltei com uma história nova para contar, inspiração para escrever e a certeza de que fui fiel a quem sou: moleque de 22 anos, marrento quando precisa defender o emocional de estranhos e que adora correr perigos moderados com teor sexual envolvido.

Sou o garoto que acha que está vivendo num filme, numa foto do Tumblr ou, literalmente, no melhor verão da minha vida — que com certeza será permeado por romances tão passageiros e intensos quanto a chuva.

*Nome fictício.

LEITURA ADICIONAL
Leia também sobre meu marcante romance de primavera e o quanto mudei desde 2012 no artigo "Romance de Primavera". Há o artigo "Relacionamento Relâmpago: paixão intensa e instantânea" que também é muito legal e fala bastante sobre estranhos que roubam nossos corações rapidamente! Se cansou da ansiedade de querer namorar alguém que acabou de conhecer, leia "Como controlar ansiedade para namorar".

Melhor Verão da Minha Vida - ÍndiceNão chore porque acabou, sorria por ter acontecidoEu e as drogasSe minha vida fosse como fotos do Tumblr

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