Carregando...



Conheci no Grindr: Muriqui

Conheci no Grindr: Muriqui
Quando me vilanizo por achar que coleciono gente, me inspiro na certeza de que coleciono histórias. Coleciono pedaços de mim em camisas de estranhos e sequestro trocadilhos sujos das personalidades renegadas que liberto debaixo de lençóis que não são meus.

Coleciono primeiras vezes.
Primaveras verdes.
McLanches felizes.

O acho grosseiramente gostoso. Pelas fotos do Grindr e as básicas de rosto que trocamos pelo Whatsapp, é pelo maxilar angular e a barriga saliente de um cara relaxado que sinto minha bermuda apertar. Ele diz que ouve Florence + The Machine mas escreve os nomes das músicas errado. Comenta sobre OneRepublic mas só fala dos singles. Não tenho certeza se quer me impressionar, pois acho que rodopiou meu Facebook inteiro atrás de informações e tenta dizer tudo que espero ouvir.

O erro foi achar que quero ouvir alguma coisa.

Me pego preconceituoso: o chamo de cafuçu na mente. Camarão, até, coisa de tirar a cabeça e comer o resto. Ele tem esse olhar interessado numa face desinteressante e quero tratá-lo como objeto. Não quero ir além. Não quero nem ir para a cama. Só preciso de alguém que encha meu ego nessa noite e ele foi o azarado.

Se até Lúcifer caiu, por que não posso ter um dia de erros calculados?
Escolhi ser vilão por esporte. Por carência. Por medo do quarto vazio.

Ele sai do Méier para me buscar. O levo à minha praia e ficamos no píer nessa hora em que o Sol já não quer brincar de purgatório. Me sinto o próprio diabo. O papo não está interessante mas ele parece interessado. Animado. Excitado. Não gosto dessa vestimenta de Comensal da Morte. Não gosto de usar ninguém, não nasci para isso.

Decido ouvir e participar do que tem para me dizer.

Ele realmente ouve Florence e OneRepublic. Também ouve Snow Patrol e Gal Costa. Não imaginei. Honestamente, tem cara de quem ouve pagode ou forró. Acho que saciei meu ego, pois não tenho mais o que conversar e quero voltar para casa. Me sinto culpado por ele ter dado a volta no Rio para passar na minha casa. Avisa que está a caminho de Muriqui, onde pretende passar o final de semana.

Digo que preciso de cerveja.
Ele diz que devemos beber.
Digo que estou sem carteira.
Ele se oferece para pagar e me convida para Muriqui.
Digo que não posso, pois o de sempre: preciso escrever para o blog amanhã.
Ele insiste.

Não faço nada contra minha vontade, mas não suporto negar aventuras. Ele tem cara de quem vai me jogar num terreno baldio depois de me estuprar e isso me deixa deturpadamente animado. Meu suicídio subjetivo está cada vez mais objetivo e ineficiente.

Ele espera na esquina de outra rua quando dou a volta pela quadra e entro em casa para pegar a carteira. Preciso me prevenir caso ele seja louco como aquele moleque que me perseguiu por três anos na adolescência. Volto para o carro depois de comer um sanduíche. Preciso tapar o estômago com alguma coisa porque sei que vou passar dos limites.

Quero perder o controle, pôr responsabilidades de mim nas mãos de alguém.
Qualquer um, não importa. Só não quero ser meu essa noite.

Atravessamos a Avenida Brasil nos trechos mais escuros. A música do carro está boa e ele parece mais dócil que eu. Engraçado é ver que posso ser a porra do lobo em pele de cordeiro comendo veadinhos numa floresta de papel, cimento e fumaça.

Se sou o monstro, do que vou ter medo?

Passamos por um McDonald's trevoso na beira da estrada e lembro que meu sonho era ter um "amigo colorido" insano, mais velho, que dirigisse bêbado, fumasse muita maconha e me colocasse em situações de risco ouvindo rock sulista americano num carro velho, atravessando o Brasil na base de vodka, cannabis e gasolina. Pararíamos no acostamento deserto, dentro do breu, para uma transa nojenta de dois dias sem banho e dormiríamos no capô, de cara para as estrelas.

Cadê meu anti-herói?

Depois de tanta conversa, ele em Muriqui é um fofo o tempo inteiro. Acho que quero ser amigo dele depois que essa noite acabar. Peço: "se eu ficar bêbado, não me moleste". Ele promete. Bebemos na orla que está tocando funk e só tem gente mal-encarada. Tenho medo e adoro. Acho que bebi seis latões, tô meio louco, sou fraco. Um amigo aparece e me dá cigarros. Tenho amigos em todo canto. Gosto de fumar e beber cerveja, mas não consigo fumar mais de três sem enjoar da nicotina.

Voltamos para a casa dele. Deitamos lado a lado. Ele cumpre a promessa e não me toca, mas sou eu quem o molesta. Minhas roupas nunca coçaram tanto para sair do corpo e ser gouine aqui não vale. Sou jovem, livre e selvagem. Sou nu.

Tomamos banho quando já é dia seguinte. Nem dormimos direito. Ele me leva para os pontos turísticos do município. Está um calor demoníaco, não estou dando duas mínimas e quero ir para casa. Mesmo com camisinha, acho que peguei HIV. Que louco sou eu de transar com um estranho? Cadê a selvageria da noite anterior?

Muriqui - RJ

Deixo de pensar num anti-herói para servir de namorado e passo a desejar um cara certinho, que cuide de mim, que me impeça de fazer essas loucuras que me colocam em risco pelo simples prazer de poder não existir.

Quando o cara certinho aparece, pouco de um mês depois, parto reclamando que ele é muito legal, que não sirvo para ser namoradinho, que preciso da rua, de outras pessoas, de histórias.

Aventura é minha cocaína.
Só de cara para a morte que me sinto imortal.

Como controlar ansiedade para namorarComo arrumar namorado?Como se dar bem no Tinder, Grindr, Bender - Vlog Sem HConheci no Grindr: Namorado #3

Comente com o Facebook:

Últimos Artigos